O TRABALHO E OS DESAFIOS DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA
O trabalho docente e os desafios da sociedade contemporânea
Prof.ª Marilene Almeida
Todo trabalho envolve certo investimento afetivo por parte do trabalhador, tanto na relação estabelecida com os outros quanto na estabelecida com o produto do trabalho. No ofício de professor, a relação afetiva é parte obrigatória do próprio exercício do trabalho, pois, é mediante o estabelecimento de vínculos afetivos que ocorre o processo de ensino-aprendizagem. São os vínculos que possibilitam a relação transferêncial, tão exaltada pela psicanálise, responsável por converter o desejo de ensinar e o desejo de aprender em conhecimento, através da autorização mútua que se opera entre sujeitos que ensinam e aprendem.
Em 1998, as Edições Unesco Brasil editou Educação: Um Tesouro a Descobrir. Relatório da Comissão Internacional sobre a Educação para o Século XXI, coordenado por Jacques Delors. As teses desse importante documento não somente foram acolhidas com entusiasmo pela comunidade educacional brasileira, como também passaram a integrar os eixos norteadores da política educacional.
O Relatório Delors foi muito feliz e ao mesmo tempo desafiador ao estabelecer os quatro pilares da educação contemporânea. Aprender a ser, a fazer, a viver juntos e a conhecer constituem aprendizagens indispensáveis que devem ser perseguidas de forma permanente pela política educacional de todos os países. Uma educação nestes moldes constitui uma nova visão de “educar”, “ensinar”, pois só é possível concretizá-la através de uma educação integral do ser humano. Uma educação que se dirige à totalidade aberta do ser humano e não apenas a um de seus componentes. A real concretização de propostas como estas só torna-se realidade à partir da prática pedagógica do professor e seu compromisso com a educação, indo além da mera transmissão de conteúdos.
O fazer docente em sala de aula é o espaço onde se concretiza a proposta de uma educação holística. Diante de uma sociedade em que os valores presentes se encontram cada vez mais distantes de uma visão ética e cidadã, momento em que os ‘líderes’ - que deveriam ser os referenciais de nossos jovens - não têm o compromisso com o bem estar coletivo, mas deixam os interesses pessoais e mercadológicos à frente dos valores que levem a sério a responsabilidade Ética e Planetária.
Segundo Morin (2002) há sete saberes “fundamentais” que a educação do futuro deveria tratar em toda sociedade e em toda cultura, sem exclusividade nem rejeição, segundo modelos e regras próprias a cada sociedade e a cada cultura. São eles:
As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão
É impressionante o fato da educação, que visa transmitir conhecimento, ser cega quanto ao que é o conhecimento humano, seus dispositivos, enfermidades, dificuldades, tendências ao erro e à ilusão, e não se preocupe em fazer conhecer o que é conhecer. Morin (2002) reflete filosoficamente sobre o fato do conhecimento ser utilizado sem que sua natureza seja examinada. Da mesma forma, o conhecimento do conhecimento deve aparecer como necessidade primeira, que serviria de preocupação para enfrentar os riscos permanentes de erro e de ilusão, que não cessam de parasitar a mente humana. Trata-se de armar cada mente no combate vital rumo à lucidez. É interessante que Morin (2002) destaca alguns itens que devem ser considerados pela “educação”, os quais constituem ferramentas de trabalho para o Psicopedagogo Institucional. Ressalta que é necessário introduzir e desenvolver na educação o estudo das características cerebrais, mentais, culturais dos conhecimentos humanos, de seus processos e modalidades, das disposições tanto psíquicas quanto culturais que o conduzem ao erro ou à ilusão, portanto campo de estudo da Psicopdagogia.
Os princípios do conhecimento pertinente
Morin (2002) defende uma visão ampla/global do conhecimento, quando fala da necessidade de promover o conhecimento capaz de apreender problemas globais e fundamentais para neles inserir os conhecimentos parciais e locais. A forma como o conhecimento é fragmentado de acordo com as disciplinas constitui um obstáculo de estabelecer vínculo entre as partes e a totalidade, o Psicopedagogo poderá provocar discussões em torno de um processo fragmentado e propor um modo de conhecimento capaz de apreender os objetos em seu contexto, sua complexidade, seu conjunto. Para isto é necessário desenvolver a aptidão natural do espírito humano para situar todas essas informações em um contexto e um conjunto. Para isto é importante optar por metodologias de ensino que permitam estabelecer as relações mútuas e as influências recíprocas entre as partes e o todo em um mundo complexo.
Ensinar a condição humana
O ser humano como um ser complexo que é ao mesmo tempo físico, biológico, psíquico, cultural, social e histórico. Até que ponto a educação leva em consideração estes fatores ao executar o processo ensino-aprendizagem? Para Morin (2002) Esta unidade complexa do ser humano é totalmente desintegrada na educação por meio das disciplinas, tendo-se tornado impossível aprender o que significa ser humano. Comenta a importância do educando e educador tomar consciência da dimensão humana, de que cada um, onde quer que se encontre, esteja ciente de sua complexidade e de sua identidade comum a todos os outros humanos. A própria organização curricular de cada disciplina deve reconhecer a unidade e a complexidade humana, reunindo e organizando conhecimentos dispersos nas ciências da natureza, nas humanas, na literatura e na filosofia, e põe em evidência o elo indissolúvel entre a unidade e a diversidade de tudo que é humano. Neste sentido o trabalho conjunto com a Coordenação Pedagógica é muito importante, pois sua atuação na orientação de uma proposta de análise curricular é de grande valor junto aos docentes e paralelamente o Psicopedagogo contribuirá dando a equipe o suporte para o conhecimento da complexidade do humano no processo de aprendizagem. Tal ação poderá ser concretizada através da promoção de encontros pedagógicos com vivências nas dinâmicas de grupo, troca de experiências, estudos de caso, palestras vivencias e informativas, indicação de livros para leitura pessoal e a disposição de sempre estar atento para ouvir docentes e discentes com atenção, favorecendo um feedback entre a equipe.
Ensinar a identidade terrena
Na sua grande maioria as Instituições Educativas do Mundo Globalizado tem centrado seus objetivos primários em torno de que? A conquista de um lugar no mercado de trabalho? Aprovação no vestibular das melhores universidades? Sem dúvidas são caminhos que todos querem alcançar, pois dizem respeito a vida pessoal de cada um envolvido no processo. Mas e a nível coletivo, planetário? O que objetivamos com nosso sistema de ensino? Morin (2002) ressalta que o destino planetário do gênero humano é outra realidade chave até agora ignorada pela educação. É preciso compreender tanto a condição humana no mundo como a condição do mundo humano, que , ao longo da história moderna, se tornou condição da era planetária. Acrescenta: “ O conhecimento dos desenvolvimentos da era planetária, que tendem a crescer no século XXI, e o reconhecimento da identidade terrena que se tornará cada vez mais indispensável a cada um e a todos, devem converter-se em um dos principais objetos da educação.(...) Como os cidadãos do novo milênio poderiam refletir sobre seus próprios problemas e aqueles do seu tempo? (...) “É a complexidade ( a cadeia produtiva/destrutiva das ações mútuas das partes sobre o todo e do todo sobre as partes) que apresenta problema. Necessitamos, desde então, conceber a insustentável complexidade do mundo no sentido de que é preciso considerar a um só tempo a unidade e a diversidade do processo planetário, suas complementaridades ao mesmo tempo que seus antagonismos. O planeta não é um sistema global, mas um turbilhão em movimento, desprovido de centro organizador. O planeta exige um pensamento policêntrico capaz de apontar o universalismo, não abstrato, mas consciente da unidade/diversidade da condição humana; um pensamento policêntrico nutrido das culturas do mundo. Educar para este pensamento é a finalidade da educação do futuro, que deve trabalhar na era planetária, para a identidade e a consciência terrenas” (p.65)
Assim, Morin(2002) trás à tona uma reflexão muito séria e pertinente ao dizer que precisamos estar comprometidos, na escala da humanidade planetária, na obra essencial da vida, que é resistir à morte. Civilizar e solidarizar a Terra, transformar a espécie humana em verdadeira humanidade torna-se o objetivo fundamental e global de toda educação que aspira não apenas ao progresso, mas à sobrevivência da humanidade. Poderá a Educação ter um objetivo/princípio mais certeiro e coerente para que os demais objetivos possam ter oportunidade de acontecer?
Enfrentar as incertezas
O desenvolvimento científico permitiu que se adquirisse muitas certezas, mas ao longo do século XX, inúmeras incertezas invadiram o mundo. A educação deveria incluir o ensino das incertezas. Para Morin(2002) “Seria preciso ensinar princípios de estratégias que permitiriam enfrentar os imprevistos, o inesperado e a incerteza (...) É preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas em meio a arquipélagos de certeza.”(p.16)
Morin chama atenção para o fato que no final do século XX que, À visão do universo obediente a uma ordem impecável, é preciso substituir a visão na qual este universo é o jogo e o risco da dialógica (relação ao mesmo tempo antagônica, concorrente e complementar) entre a ordem, a desordem e a organização. Como estamos conduzindo a educação em nossas escolas? Como estamos avaliando nossos estudantes, futuros comandantes e profissionais da nação? O psicopedagogo e a equipe técnica pedagógica da escola precisa estar alerta ao acompanhar o trabalho docente que deve ser conduzido para lidar com as incertezas, e a tomada de uma nova consciência: o homem está confrontado de todos os lados com as incertezas. Por isso a educação do futuro deve se voltar para as incertezas ligadas ao conhecimento. Morin cita alguns itens que justiçam estas incertezas(2002):
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- “Um princípio de incerteza cérebro-mental, que decorre do processo de tradução/reconstrução própria do conhecimento.
- Um princípio de incerteza lógica: como dizia Pascal muito claramente. “Nem a contradição é sinal de falsidade, nem a não-contradição é sinal de verdade”.
- Um princípio da incerteza racional, já que a racionalidade, se não mantém autocrítica vigilante, cai na racionalização.
- Um princípio de incerteza psicológica: existe a impossibilidade de ser totalmente consciente do que se passa na maquinaria de nossa mente, que conserva sempre algo de fundamentalmente inconsciente.(p.84)
Portanto, a realidade não é facilmente legível. As idéias e teorias não refletem, mas traduzem a realidade, que podem traduzir de maneira errônea. Nossa realidade. Isto nos mostra que é preciso saber interpretar a realidade antes de reconhecer onde está o realismo. Estará o professor preparado para lidar com questões filosóficas e psicológicas do conhecimento? O acompanhamento e o direcionamento do Psicopedagogo é de grande valor fornecendo suporte ao trabalho docente trazendo à tona o verdadeiro sentido de aprender e ensinar”
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Ensinar a compreensão
A compreensão é o fator preponderante da comunicação. A educação para compreensão está presente no ensino? Morin(2002) destaca que: “ O planeta necessita, em todos os sentidos, de compreensão mútua. Considerando a importância da educação para a compreensão, em todos os níveis educativos e em todas as idades, o desenvolvimento da compreensão pede a reforma das mentalidades. Esta deve ser a obra para a educação do futuro. A compreensão mútua entre os seres humanos, quer próximos, quer estranhos, é daqui para a frente vital para que as relações humanas saiam de seu estado bárbaro de incompreensão. Daí a necessidade de estudar a incompreensão a partir de suas raízes, suas modalidades e seus efeitos. Este estudo é tanto mais necessário porque enfocaria não os sintomas, mas as causas do racismo, da xenofobia, do desprezo. Constituiria, ao mesmo tempo, uma das bases mais seguras da educação para a paz, à qual estamos ligados por essência e vocação.
A ética do gênero humano
A ética não poderia ser ensinada por meio de lições de moral. Deve formar-se nas mentes com base na consciência de que o humano é, ao mesmo tempo, indivíduo, parte da sociedade, parte da espécie. Para esta tripla realidade não existe um manual para ações éticas, é um processo de construção, pois envolve compreender o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e da consciência de pertencer à espécie humana. Morin(2002) “ A educação deve conduzir à “antropo-ética”, levando em conta o caráter ternário da condição humana, que é ser ao mesmo tempo indivíduo/espécie/espécie. Nesse sentido, a ética indivíduo/espécie necessita do controle mútuo da sociedade pelo indivíduo e do indivíduo pela sociedade, ou seja, a democracia;a ética indivíduo/ espécie convoca, ao século XXI, a cidadania terrestre”.
Morin(2002) acrescenta: “A antropo-ética instrui-nos a assumir a missão antropológica do milênio:
- trabalhar para a humanização da humanidade:
- efetuar a dupla pilotagem do planeta: obedecer à vida, guiar a vida;
- alcançar a unidade planetária na diversidade;
- respeitar no outro, ao mesmo tempo,a diferença e a identidade quanto a si mesmo;
- desenvolver a ética da solidariedade;
- desenvolver a ética da compreensão;
- ensinar a ética do ser humano.
(...) Compreende, por conseguinte, como toda ética, aspiração e vontade, mas também aposta no incerto.Ela é consciência individual além da individualidade”.(p.106)
Morin(2002) conclui: “Na verdade, a dominação, a opressão, a barbárie humanas permanecem no planeta e agravam-se. Trata-se de um problema antropo-histórico fundamental, para o qual não há solução a priori, apenas melhoras possíveis, e que tenderia a civilizar cada um de nós, nossas sociedades, a Terra.” ( p.114)
Portanto, o sistema educacional com enfoque contemporâneo necessita estabelecer uma relação de controle mútuo entre a sociedade e os indivíduos pela democracia e conhecer a Humanidade como comunidade planetária. A educação pode e deve contribuir para uma consciência que se traduza em cidadania terrena.
O autor fala da missão antropológica do milênio focando a ação da Educação muita além do desenvolvimento de conteúdos, muitas das vezes sem sentido para o aluno e que o leva a objetivar unicamente passar no vestibular, assim, a sociedade e a família, em sua grande maioria, só conseguem ver está função da escola. Já colhemos hoje os frutos de uma ação educativa altamente conteúdista sem foco coletivo. A mídia, por exemplo, divulga a urgência da mudança de mentalidade dos humanos diante do uso dos recursos naturais, pois nisso está envolvido a sua própria sobrevivência. Não seria este um dos desafios contemporâneo da docência? O professor ao refletir sobre o conteúdo programático de sua disciplina deverá ser capaz de conferir sentido para a vida de seus educandos enquanto Cidadãos Planetários. Para tanto a contextualização e a problematização são ingredientes necessários ao desenvolvimento de uma aula significativa.
(Perrenoud, 2001) diz: ”Definimos o professor profissional como uma pessoa autônoma, dotada de competências específicas e especializadas que repousam sobre uma base de conhecimentos racionais, reconhecidos, oriundos da ciência, legitimados pela Universidade, ou de conhecimentos explicitados, oriundos da prática. Quando sua origem é uma prática contextualizada, esses conhecimentos passam a ser autônomos e professorados,isto é, explicitados oralmente de maneira racional, e o professor é capaz de relatá-los”. (p.25)
Neste sentido o professor tem um papel fundamental como educador, pois além de abordar a problemática inter-relaciona-a a aspectos socioeconômicos, tecnológicos e culturais, contagia os jovens e faz com que leve os novos conhecimentos além dos limites da escola, produzindo ações concretas capazes de provocar transformações. Isto é um dos grandes desafios da docência atual.
Prof.ª Marilene Almeida
Vice-diretora pedagógica e coordenadora pedagógica do Ensino Médio
Graduada em Pedagogia, especialista em Orientação Educacional e Docência de Disciplinas Pedagógicas
Pós-graduada em Psicopedagogia Institucional e em Gestão de Recursos Humanos
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